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O Brasil é o maior mercado industrial da América do Sul. A pasta e o papel, a mineração, o aço, a indústria automóvel, a alimentar e a química têm aí fábricas grandes e muitas vezes muito modernas. Muitas destas instalações são de fabricantes europeus. E muitos responsáveis de manutenção no Brasil conhecem o mesmo problema: a peça de substituição é na Europa um artigo standard, mas no Brasil é um projeto.
Este artigo explica porque é que as peças de substituição para fábricas brasileiras têm de ser planeadas de outra forma e o que as compras e a manutenção devem ter em conta.
Porque é que o Brasil é diferente
Um sistema de importação complexo
O Brasil tem um dos sistemas fiscais e de importação mais complexos do mundo. Sobre as mercadorias importadas incidem, além do direito de importação, outros impostos federais e estaduais. O montante depende da classificação aduaneira, no Brasil designada NCM, e em parte do estado federado. Para os compradores, isto significa: o preço à saída da fábrica na Europa diz pouco sobre os custos reais no Brasil.
Homologações e certificações
Para determinados grupos de produtos, o Brasil exige uma avaliação da conformidade pelo INMETRO, o instituto nacional de metrologia e qualidade. Podem estar abrangidos, por exemplo, determinados componentes elétricos. Se uma peça de substituição estiver sujeita a certificação e faltar a prova, a importação pode falhar.
Distâncias
Muitas fábricas situam-se no interior do país, por exemplo fábricas de pasta no meio das suas plantações de eucalipto ou minas em Minas Gerais. Mesmo dentro do Brasil, o caminho do porto ou do aeroporto até à fábrica demora.
Uma indústria local forte
O Brasil tem uma indústria de fornecedores própria e competente. Muitos fabricantes internacionais produzem no local. Para algumas peças existem marcas nacionais equivalentes que dispensam a importação.
No Brasil não ganha quem encomenda mais depressa. Ganha quem sabe mais cedo do que precisa.
Cinco princípios para o planeamento de peças de substituição
1. Prever mais antecedência
O que na Europa está em poucos dias no distribuidor demora bastante mais para uma fábrica no Brasil, quando tem de ser importado. Planeie as paragens de manutenção e a reposição de stock com uma antecedência proporcionalmente maior. As encomendas para uma paragem planeada devem sair cedo, não no último mês.
2. Manter as peças críticas no local
Como as aquisições urgentes no estrangeiro são trabalhosas, compensa ter um stock maior de peças críticas importadas do que numa fábrica comparável na Europa. A conta é: capital imobilizado contra risco de paragem. No Brasil, o resultado pende mais vezes a favor do armazém.
3. Verificar a equivalência local
Para cada peça importada vale a pena perguntar: existe uma marca nacional ou uma peça produzida localmente pelo mesmo fabricante? Isso poupa custos de importação e tempo. O importante é uma verificação técnica rigorosa da equivalência, para que não seja montada uma peça inadequada por razões de custo.
4. Agrupar necessidades
Cada importação gera custos fixos com documentos, tramitação e desalfandegamento. Importar pequenas peças avulsas é, por isso, muitas vezes pouco rentável. Agrupe as necessidades em encomendas maiores e planeadas, por exemplo trimestralmente ou antes das paragens.
5. Manter a classificação e os documentos em ordem
A classificação NCM correta, descrições técnicas completas e faturas corretas não são uma formalidade no Brasil. Os erros levam a atrasos ou a cobranças adicionais. Trabalhe com fornecedores que conheçam os requisitos e preparem os documentos em conformidade.
A ordem certa das perguntas
Antes de encomendar uma peça de substituição para uma fábrica brasileira, ajuda seguir uma ordem fixa de perguntas. Primeiro: a peça é realmente crítica ou basta uma encomenda mais tarde? Segundo: existe uma fonte nacional equivalente? Terceiro: se não, a necessidade pode ser agrupada com outras peças importadas? Quarto: a classificação, a descrição técnica e eventuais obrigações de certificação estão esclarecidas? Quem responde a estas quatro perguntas em cada encomenda de maior dimensão evita a maioria das surpresas.
Ex-Tarifário: um instrumento que convém conhecer
O Brasil tem, com o Ex-Tarifário, um regime ao abrigo do qual o direito de importação de determinados bens de capital e bens de informática e telecomunicações pode ser reduzido quando não existe produção nacional equivalente. O regime está sujeito a condições e procedimentos e abrange sobretudo máquinas e instalações, menos peças de desgaste avulsas. No caso de componentes maiores ou de modernizações de instalações, pode, no entanto, compensar analisar esta possibilidade com um consultor especializado.
Exemplo: pasta e tissue
O Brasil é um dos grandes produtores mundiais de pasta de celulose, e a produção de tissue também está a crescer. Estas fábricas funcionam em contínuo, muitas vezes 24 horas por dia e durante longos períodos sem interrupção. Uma paragem não planeada é cara, e as paragens planeadas são curtas e muito apertadas.
Para o planeamento de peças de substituição, isto significa:
- Grandes componentes como rolamentos de rolos, redutores ou bombas são planeados muito antes da paragem.
- Peças de desgaste como telas, feltros, raspadores e vedantes são calculáveis em ciclos fixos e adequam-se a acordos-quadro.
- A eletrónica e a tecnologia de acionamento de fabricantes europeus são muitas vezes peças importadas com risco de descontinuação.
- Devido ao isolamento de algumas fábricas, o armazém da fábrica tem de cobrir mais do que numa cidade com rede de distribuidores.
Padrões semelhantes aplicam-se à mineração e à siderurgia, também fortemente presentes no Brasil.
Cenário típico: a paragem que chegou cedo demais
Uma fábrica planeia a sua paragem anual de manutenção. A lista de peças de substituição é elaborada dois meses antes, como é habitual na fábrica-irmã europeia. Várias posições são peças importadas da Europa. Em algumas, tudo corre bem. Noutras, falta um documento; numa, a classificação é contestada. As peças ficam retidas no desalfandegamento enquanto a paragem começa. A manutenção tem de adiar trabalhos e parte das intervenções passa para o ano seguinte.
No ano seguinte, o planeamento começa mais cedo, as peças importadas são adquiridas numa encomenda agrupada e os documentos são acertados previamente com o fornecedor. A paragem decorre conforme o planeado.
Armazém da fábrica, consignação ou contrato-quadro?
Para a manutenção de stock existem vários modelos. O armazém clássico da fábrica dá-lhe controlo total, mas imobiliza capital. Um stock em consignação, em que o fornecedor disponibiliza a mercadoria no local e só a fatura quando é retirada, alivia o balanço, mas pressupõe um fornecedor com presença no país. Os contratos-quadro com chamadas de entrega fixas adequam-se a peças de desgaste planeáveis. Na prática, muitas fábricas combinam os três modelos, ajustados à criticidade e à previsibilidade de cada peça.
Erros frequentes em fábricas no Brasil
- Adotar sem análise as antecedências de planeamento europeias
- Importar pequenas peças avulsas em vez de agrupar necessidades
- Usar descrições técnicas demasiado sucintas, tornando a classificação contestável
- Não verificar alternativas nacionais ou utilizá-las sem verificação
- Descobrir obrigações de certificação só no momento da importação
Língua e interlocutores
A manutenção no Brasil fala português. As questões técnicas aos fabricantes na Europa passam muitas vezes pelo inglês, por vezes por várias etapas. Cada tradução é uma fonte de erros. Um fornecedor com interlocutores de língua portuguesa no local e acesso aos fabricantes na Europa encurta bastante esta cadeia.
A KTB no Brasil
A KTB tem as suas raízes na exportação de peças de substituição e de desgaste para a América Latina e está presente no local com a KTB do Brasil. A nossa sede no país fica em Campinas, no estado de São Paulo, e existem outras representações, entre outras, em Belo Horizonte e Porto Alegre. Em conjunto com a nossa sede em Hamburgo, combinamos o acesso a fabricantes europeus com interlocutores que falam português e conhecem os procedimentos brasileiros.
Como adquirimos peças de substituição em todo o mundo, pode ler na nossa página sobre aquisição. Como é possível reduzir custos através da aquisição agrupada, mostra a nossa página sobre otimização de custos.
Conclusão
Uma fábrica no Brasil precisa de uma estratégia própria de peças de substituição. Mais antecedência, stocks maiores de peças críticas importadas, a verificação de alternativas locais, encomendas agrupadas e documentos em ordem fazem a diferença. Global sourcing significa aqui sobretudo: saber o que se resolve localmente e o que não, e ter um canal fiável para o resto.
Gere uma fábrica no Brasil e quer melhorar o seu fornecimento de peças de substituição? Escreva-nos através da página de contacto.
Perguntas frequentes
Porque é que a aquisição de peças de substituição para o Brasil demora muitas vezes mais?
O Brasil tem um sistema de importação complexo, com vários impostos, uma classificação aduaneira própria e, em parte, obrigações de certificação pelo INMETRO. A isto juntam-se requisitos documentais e, muitas vezes, grandes distâncias até às fábricas no interior. Cada uma destas etapas leva tempo. Erros na classificação ou nos documentos levam rapidamente a novos atrasos.
O que é a NCM no Brasil?
NCM significa Nomenclatura Comum do Mercosul, a nomenclatura aduaneira comum dos Estados do Mercosul. Baseia-se no Sistema Harmonizado internacional e determina que direitos e impostos incidem sobre uma mercadoria e que condições se aplicam. Uma classificação NCM correta é decisiva para qualquer importação para o Brasil, também no caso das peças de substituição.
O que é o Ex-Tarifário?
O Ex-Tarifário é um regime brasileiro que permite reduzir o direito de importação de determinados bens de capital e bens de informática e telecomunicações quando não existe produção nacional equivalente. Abrange sobretudo máquinas e instalações, menos peças de substituição avulsas. Em projetos maiores, compensa analisar a questão com um consultor especializado.
Deve manter-se mais stock de peças de substituição no Brasil do que na Europa?
Para peças críticas importadas, na maioria dos casos sim. Como as aquisições urgentes no estrangeiro são trabalhosas e demoradas, a ponderação entre capital imobilizado e risco de paragem pende mais vezes a favor de um stock maior. Isto não se aplica a peças que se obtêm localmente com qualidade equivalente. Por isso, compensa verificar cada peça importada quanto a alternativas nacionais.
Sobre o autor
Mica Duarte
Senior Procurement Specialist na KTB Europe, com mais de 15 anos de experiência em sourcing global de MRO e gestão da cadeia de suprimentos.
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